sexta-feira, 4 de setembro de 2009

- Na minha caixa de sapato... -

Na última quarta-feira fui apresentado ao livro E um rinoceronte dobrado, de Hermes Bernardi Jr e ilustrações interessantíssimas de Guto Lins. O título chama atenção de cara, e qual não é a surpresa ao abrir o livro e se deparar com um texto extremamente poético e bem construído. Trata-se de um poema que se constrói em cima de imagens bem curiosas. Elas representam as coisas que a voz gostaria de guardar dentro da sua caixa de sapatos. De cascas de ferida a sorrisos, de um jacaré de paletó a um saquinho de beleza. Tudo junto, coexistindo harmonicamente no mesmo espaço.
Pois bem, um dos exercícios da aula de Produção Textual-Poesia foi justamente escrever: o que você colocaria na sua caixa de sapatos? E saiu isso...

Na minha caixa de sapato
eu colocaria, de fato,
tudo aquilo que imagino
desde o tempo de menino

A namorada de mentira
e o gol que eu nunca fiz
a minha pedra que transpira
e o catarro cor de anis

Colocaria a nota dez
que nunca tirei na escola
e o meu cachorro de três pés
que de muletas joga bola

Ainda que não quisesse
teria que caber a saudade
não daquilo que acontece
mas do que eu invento da verdade.

01/09/2009

Na minha caixa de sapato só cabe o que eu quero, exista ou não.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

- O vento no rosto é sonho -

Hoje é dia de encontrar o poeta. Ferreira Gullar e o testemunho de uma pequena revolução, às 16h, no Auditório Machado de Assis da Biblioteca Nacional.

"bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta"

(Poema Sujo)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

- ? -



Levei o Livro das Perguntas para os meus alunos hoje. Duas meninas em especial se interessaram de cara pela obra. Talvez muito mais pelo projeto gráfico e as interessantíssimas ilustrações dessa edição da Cosac Naify do que propriamente pelo Neruda. Nem O carteiro e o poeta elas haviam assistido. Prestei atenção.
A primeira impressão, claro, foi de estranhamento. Questionaram as perguntas e acharam aquilo tudo muito absurdo. Se espantaram, olharam torto, riram, mas não pararam de ler. E assim foram. Entre tropeços e suspiros, muito prazer, conheceram Pablo Neruda.
Elas demoraram, mas entenderam que o Livro das Perguntas não se lê procurando respostas. O sentido está em sentir.
Se perguntar não ofende, responder nem sempre explica.
NERUDA, Pablo. Livro das perguntas. Ilustrações: Isidro Ferre. Tradução Ferreira Gullar. São Paulo: Cosac Naify, 2008.



quinta-feira, 3 de abril de 2008

Contextualizando

"A obra infanto-juvenil, se literária, amplia seu público, incorporando o adulto ao oferecer-lhe a possibilidade de realizar múltiplas leituras. Mais do que isso, o leitor é envolvido pela magia de história e palavra, surpreendendo-se com uma qualidade que muitas vezes desconhecia existir em um texto aparentemente para criança. O rabo do gato, de Mary França e Eliardo França, por exemplo, permite que se abordem temas como a questão da identidade e da imagem que se quer projetar, o encontro com o outro. É uma história ‘simples’ e um texto capaz de ser lido talvez por uma criança de classe de alfabetização, uma vez que não apresenta uma única dificuldade ortográfica (como dígrafos, encontros consonantais), mas não é à toa que um sapo – animal socialmente rejeitado, associado à bruxaria - encontra e fica com um rabo de gato – animal cujo termo é empregado para qualificar um rapaz ou um homem muito atraente, segundo o significado coloquial dicionarizado. O tatu se aproxima dele, cumprimentando-o como se fosse um gato. Nosso sapo, porém, ainda se apresenta segundo o que é. O tatu contra-argumenta que “- Sapo com rabo de gato, é gato!” (1986: 7), estabelecendo a aparência – a imagem, o ‘simulacro’ - como critério de reconhecimento do ser. Surge um gato que não reconhece o sapo como um igual, dirigindo-se a ele como sapo. Convencido de sua nova identidade, o sapo retruca, afiançando ser um gato. Novamente o critério usado é o de um traço distintivo ligado a uma parte do corpo exterior: “Gato com cara de sapo, é sapo!” (1986: 10). O impasse dilui-se com a chegada da sapa, que lhe pergunta: “- Você é um sapo ou é um gato?” (1986: 11), obrigando-o, de certa forma, a se definir. Na última página, com alguns coraçõezinhos sobre os dois, ele afirma sua identidade: “E o sapo falou: / - Eu sou um sapo. / Eu sou um sapo. / Eu sou um sapo!” (1986: 12). O texto permite pensar ainda a estruturação da personalidade com base na interação com o outro, que modifica a percepção que o ser tem de si – na esteira de Stuart Hall, da psicologia e de textos que refletem sobre as características da pós-modernidade -, além do amor como um sentimento que capacita o ser a se despir de suas máscaras e papéis sociais, porque implica a convivência com defeitos e virtudes do outro - com o ‘sapo’ que somos -, bem diferente da paixão, associada à imagem que se tece do outro – o ‘príncipe encantado’. Se outrora o príncipe queria deixar de ser sapo, voltando a sua antiga forma humana, nosso protagonista garante a felicidade ao se afirmar como sapo, lembrando-nos Shrek, Fiona e outros personagens contemporâneos."

Regina Michelli-Professora Doutora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro