"A obra infanto-juvenil, se literária, amplia seu público, incorporando o adulto ao oferecer-lhe a possibilidade de realizar múltiplas leituras. Mais do que isso, o leitor é envolvido pela magia de história e palavra, surpreendendo-se com uma qualidade que muitas vezes desconhecia existir em um texto aparentemente para criança. O rabo do gato, de Mary França e Eliardo França, por exemplo, permite que se abordem temas como a questão da identidade e da imagem que se quer projetar, o encontro com o outro. É uma história ‘simples’ e um texto capaz de ser lido talvez por uma criança de classe de alfabetização, uma vez que não apresenta uma única dificuldade ortográfica (como dígrafos, encontros consonantais), mas não é à toa que um sapo – animal socialmente rejeitado, associado à bruxaria - encontra e fica com um rabo de gato – animal cujo termo é empregado para qualificar um rapaz ou um homem muito atraente, segundo o significado coloquial dicionarizado. O tatu se aproxima dele, cumprimentando-o como se fosse um gato. Nosso sapo, porém, ainda se apresenta segundo o que é. O tatu contra-argumenta que “- Sapo com rabo de gato, é gato!” (1986: 7), estabelecendo a aparência – a imagem, o ‘simulacro’ - como critério de reconhecimento do ser. Surge um gato que não reconhece o sapo como um igual, dirigindo-se a ele como sapo. Convencido de sua nova identidade, o sapo retruca, afiançando ser um gato. Novamente o critério usado é o de um traço distintivo ligado a uma parte do corpo exterior: “Gato com cara de sapo, é sapo!” (1986: 10). O impasse dilui-se com a chegada da sapa, que lhe pergunta: “- Você é um sapo ou é um gato?” (1986: 11), obrigando-o, de certa forma, a se definir. Na última página, com alguns coraçõezinhos sobre os dois, ele afirma sua identidade: “E o sapo falou: / - Eu sou um sapo. / Eu sou um sapo. / Eu sou um sapo!” (1986: 12). O texto permite pensar ainda a estruturação da personalidade com base na interação com o outro, que modifica a percepção que o ser tem de si – na esteira de Stuart Hall, da psicologia e de textos que refletem sobre as características da pós-modernidade -, além do amor como um sentimento que capacita o ser a se despir de suas máscaras e papéis sociais, porque implica a convivência com defeitos e virtudes do outro - com o ‘sapo’ que somos -, bem diferente da paixão, associada à imagem que se tece do outro – o ‘príncipe encantado’. Se outrora o príncipe queria deixar de ser sapo, voltando a sua antiga forma humana, nosso protagonista garante a felicidade ao se afirmar como sapo, lembrando-nos Shrek, Fiona e outros personagens contemporâneos."
Regina Michelli-Professora Doutora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro